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Armim Unter
Ideias

Liderança

Suas ações falam tão alto que eu não consigo te ouvir

22 de julho de 2026 · 8 min de leitura

Ao longo desta série, temos desbravado as engrenagens mais complexas do mundo corporativo: fundar negócios do zero, hackear a burocracia para inovar, desenhar produtos que não destruam o ecossistema, liderar equipes com base em propósito. Erguemos, tijolo por tijolo, a figura do líder de alta performance. Resta, porém, uma falha estrutural que a literatura de negócios costuma ignorar: o que acontece com a equipe quando quem a lidera está sangrando por dentro? Como um executivo pode curar a dor do seu time se ele mesmo está adoecido? A resposta, segundo Paula Pimenta, não está na tecnologia. Está no espelho.

Mineira de nascença, criada entre a liberdade de uma fazenda no Pará e o desenvolvimento em Goiânia, Paula se formou em Engenharia de Alimentos e construiu uma carreira que seguiu, com precisão cirúrgica, a cartilha tradicional do sucesso: passou pela Unilever como estagiária, onde também conheceu o marido, entrou no cobiçado programa de trainees da Cargill, atuou nove anos na Danone e quase onze na Natura. Durante os primeiros quinze anos, foi uma profissional puramente técnica, vivendo em laboratórios de qualidade, analisando bolor e levedura. Sua trajetória mudou quando uma gestora visionária enxergou nela talentos que ela mesma desconhecia, convidando-a para áreas comerciais, de atendimento e de digitalização de negócios, territórios em que não tinha nenhum domínio técnico prévio.

Aos 17 anos, Paula havia escrito num papel seu roteiro de vida: casar aos 24, tornar-se diretora de uma multinacional aos 30. Cumpriu ponto por ponto. Bateu todas as metas, recebeu os prêmios da companhia, dominou seu mercado. E foi exatamente no topo dessa montanha de realizações, crachá de diretora no peito, vida financeira estabilizada, que descobriu a pior das verdades: o topo estava vazio. A obsessão pela entrega a havia transformado numa máquina de resultados que atropelava a própria essência, negligenciava a presença na família e esgotava o próprio corpo. Ela havia liderado projetos milionários e perdido, no processo, a liderança sobre si mesma.

A anestesia dos 34 aos 36

A crise de Paula não chegou como demissão, chegou como anestesia existencial. Entre os 34 e os 36 anos, tendo alcançado tudo o que havia planejado, ela entrou num estado de inércia sombrio: acordava, trabalhava no piloto automático, jantava, dormia. Chegava aos fins de semana tão drenada que não tinha ânimo para viver. Em suas próprias palavras, era vítima das escolhas que fizera ao priorizar o destino em detrimento da jornada, tratando relações pessoais como meios para chegar a algum lugar.

O primeiro choque veio com uma crise no casamento e a perda absoluta de sentido, uma situação que a engenheira acostumada a gerenciar orçamentos e planilhas não conseguia controlar. Iniciou ali um processo de cura da própria alma que levaria cinco anos. Mas a mente não caminha sozinha; o corpo é testemunha silenciosa dos abusos que cometemos contra nós mesmos. Aos 40 anos, a lombar de Paula travou de forma fulminante: uma hérnia de disco a deixou deitada no sofá, chorando em posição fetal, incapaz de se levantar. Naquele instante, o corpo enviou o ultimato que a reflexão sozinha não havia conseguido: não bastava orar, era preciso agir.

O trajeto de meia hora que curou a dor de barriga

O momento mais revelador, porém, não aconteceu num consultório médico, mas no trajeto matinal com o filho. João Paulo, diagnosticado com uma síndrome autoimune de origem emocional, começou a se queixar de fortes dores na barriga pela manhã, pedindo para não ir à escola, sempre reclamando do horário da van, que passava às 6h15. Paula, com a mente acelerada de executiva, minimizava: "Ah, meu filho, mas é a van que tem." Até o dia em que se fez a pergunta que mudaria tudo: qual é a real dificuldade de eu mesma levá-lo à escola? O que meia hora a mais de sono fará na minha carreira, comparado ao impacto na vida dele?

Assumiu o volante. O trajeto virou o momento sagrado dos dois, sem rádio, sem distração, apenas conversa ou oração. A dor de barriga do menino desapareceu e nunca mais voltou. Não era dor física; era ausência da mãe. Aquele trajeto ensinou a Paula que tempo não é sobre horas no relógio, mas sobre intencionalidade da presença, e que, antes de ser diretora, ela precisava assumir o papel de líder da própria casa.

A regra da Coca-Cola Zero

Uma das lições mais contundentes de Paula nasce de um episódio doméstico. Por anos, ela proibiu o filho de tomar refrigerante, alegando que fazia mal à saúde, enquanto ela e o marido consumiam Coca-Cola Zero diariamente em casa. Quando o menino cresceu, questionou a hipocrisia: "Se fizesse mal, vocês não estariam tomando." Foi o clique brutal que ela resume numa frase que deveria estar em toda sala de liderança: "Suas ações falam tão alto que eu não consigo te ouvir." A coerência, diz ela, é a única moeda de troca válida na construção de autoridade moral, seja com um filho, seja com uma equipe.

O fim do vitimismo

Paula é igualmente cortante ao tratar da tentação de terceirizar a responsabilidade pelo próprio esgotamento. "O RH é só uma desculpa para aquilo que a pessoa não está fazendo por si mesma", afirma. Sua virada começou quando ela se olhou no espelho e assumiu: "Eu estou aqui pelas minhas escolhas. Ninguém escolheu por mim." O dono da sua vida, segundo ela, é o seu CPF, não o CNPJ em que você trabalha.

O corpo cobra a conta

A hérnia de disco também gerou uma mudança de postura em relação ao próprio corpo. "Ninguém doente é um bom líder", diz Paula, que passou a tratar a hipertrofia e a alimentação como pilares não negociáveis para sustentar a pressão mental da diretoria, chegando a avisar o médico: "Eu quero perder gordura, mas se eu perder um grama de músculo, eu nunca mais volto aqui."

O tempo como investimento, não como desculpa

Por fim, há a gestão da agenda. "Elon Musk tem 24 horas, Donald Trump tem 24 horas, a gente também tem 24 horas. Tempo não é diferencial, o diferencial é onde você escolhe investir o seu", resume Paula, que há mais de quinze anos proíbe reuniões marcadas às 17h30 e cumpre carga horária de alta produtividade até o fim da tarde. A falta de organização alheia, segundo ela, não pode se tornar sua emergência.

O que isso significa para quem lidera

A trajetória de Paula desafia diretamente a ideia de que autoliderança é um tema de bem-estar, secundário à estratégia. Ela é a estratégia. Nenhuma cobrança de pontualidade, resiliência ou inteligência emocional tem qualquer valor se quem exige não pratica o que exige primeiro. E nenhum plano de carreira, por melhor desenhado que seja pela empresa, substitui a responsabilidade pessoal de decidir sair de um ambiente tóxico ou mudar de hábito. Para quem lidera profissionais sêniores, ou assume uma área técnica onde a equipe sabe mais do que o próprio gestor, a lição complementar é abandonar a necessidade de ter todas as respostas e usar perguntas fora da caixa para tirar os especialistas da zona de conforto. Não é preciso saber fazer; é preciso saber instigar quem faz. Antes de qualquer meta de time, há uma meta anterior e mais difícil: liderar a si mesmo com a mesma disciplina que se exige dos outros.

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