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Armim Unter
Ideias

Estratégia

Vendas não é arte, é ciência, e tecnologia amplifica o caos

29 de julho de 2026 · 8 min de leitura

Existe um mito persistente no ambiente de negócios: o de que vendas depende exclusivamente de carisma, lábia ou improviso. No imaginário comum, o vendedor de sucesso é o extrovertido nato, que convence qualquer pessoa por puro instinto. Fábio Couto, que liderou estruturas de vendas em quatro das maiores multinacionais de tecnologia do planeta, discorda frontalmente dessa narrativa. Para ele, alta performance comercial não é arte, é ciência exata, regida por processo, cadência, disciplina e gerenciamento do tempo.

Sua paixão comercial nasceu de forma precoce e lúdica. Aos 12 anos, numa viagem ao Rio de Janeiro, terra natal de sua família, Fábio conheceu o sacolé, o geladinho das praias cariocas. Fascinado pelo sucesso do produto, voltou para casa, pediu saquinhos plásticos à mãe e passou a produzir sacolés de groselha para vender na rua do condomínio. O sucesso foi tão fulminante que, em poucos dias, os amigos batiam à sua porta perguntando pelo "Sacolé do Binho", seu apelido de infância. Ao presenciar a cena, o pai profetizou: "Fábio, tenho certeza de que você será um grande vendedor de sucesso."

O pai, curiosamente, pertencia a um universo profissional oposto: foi um dos pioneiros da tecnologia da informação no Brasil, técnico de hardware nas máquinas da Burroughs e da Ediza, posteriormente adquirida pela Hewlett-Packard. Como havia abandonado a faculdade por uma proposta de trabalho irrecusável na juventude, estabeleceu como missão de vida ver os filhos formados, desejo que Fábio honrou se graduando em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, complementando depois com pós-graduação e MBA. Apesar da vontade paterna de que seguisse a carreira técnica, e de ter ganhado um computador MSX aos 15 anos, Fábio observava nos almoços de domingo um padrão: enquanto os técnicos trabalhavam exaustivamente nos bastidores, os profissionais de vendas viajavam o mundo em premiações e dirigiam carros importados. A decisão foi tomada ali: ele não programaria a tecnologia, seria o homem que a vendia.

Essa clareza o conduziu por uma das trajetórias mais robustas do mercado B2B: HP, SAP, Microsoft e Salesforce. Na HP, onde começou, absorveu a cultura do HP Way, o cliente no centro das decisões, colaboração e confiança mútua como pilares. Na SAP, dominou a venda para grandes contas através de soluções verticalizadas. Na Microsoft, operou expansão de mercado via ecossistemas de parceiros, sob a premissa de que "parceiro bom é parceiro perto". Na Salesforce, liderou a área de pequenas e médias empresas, estruturando crescimento comercial baseado em receita previsível e recorrente. Hoje, como fundador da ScaleCo, atua como conselheiro e mentor de CEOs e fundadores.

O caos acelerado pela tecnologia

O ponto de virada de sua carreira não ocorreu num momento de escassez, mas no auge da abundância. Durante a pandemia de Covid-19, com a digitalização forçada de empresas que haviam adiado a modernização por anos, o volume de vendas na divisão de pequenas e médias empresas da Salesforce, que Fábio liderava, disparou de forma meteórica. Mas atrás dos números recordes, ele observou um padrão disfuncional: dezenas de empresas compravam licenças caras de CRM e soluções de inteligência artificial acreditando que a tecnologia resolveria magicamente suas deficiências comerciais. Não possuíam processos internos definidos, não conheciam seu Perfil de Cliente Ideal e dependiam da improvisação de seus funcionários.

A constatação de Fábio foi cirúrgica: "Colocar tecnologia em um ambiente desorganizado apenas acelera o caos." A tecnologia digitaliza o processo existente; se o processo analógico é ruim ou inexistente, o software torna o desperdício de energia e o erro operacional mais rápidos e mais caros.

Essa constatação se conectou com uma paixão pessoal: a arquitetura e a construção civil. Nas horas livres, Fábio desenha e constrói casas, e sabe que é impossível erguer paredes ou instalar telhado sem antes consolidar uma fundação sólida e invisível sob a terra. Olhando para as empresas de seus clientes, percebeu que a maioria dos fundadores tentava colocar a tecnologia, o telhado, em estruturas sem alicerce processual. Empresários exaustos, trabalhando de 14 a 16 horas por dia, com casamentos e famílias em ruptura por causa de negócios que dependiam exclusivamente de seu esforço pessoal. Foi essa clareza que o levou a abrir mão de uma cadeira executiva altamente remunerada para fundar a ScaleCo, ensinando empresários a erguer o alicerce estratégico antes de comprar qualquer software.

A rigidez do ICP como redutor de esforço

Uma das lições mais práticas de Fábio diz respeito à definição de Perfil de Cliente Ideal. O desespero por receita imediata leva empresas a vender para qualquer cliente que demonstre interesse, sobrecarregando a equipe e elevando o Custo de Aquisição de Clientes. Definir o ICP é, antes de tudo, saber para quem a empresa não deve vender. No primeiro ano na área de pequenas e médias empresas da Salesforce, Fábio encontrou seu time realizando reuniões complexas e demonstrações de produto para fechar contratos insignificantes, de apenas uma ou duas licenças. Mudou o foco para clientes de maior porte, com aderência real à solução: "Eu prefiro trabalhar o ano inteiro focado em fechar três ou quatro grandes projetos qualificados do que desgastar o meu time operacional gerenciando cem pequenos contratos ruins."

O método CTA e o Leão de Treino

Outra contribuição relevante é seu método para blindar contratações comerciais. Processos seletivos tradicionais, baseados em currículo e conversa informal, costumam contratar o que Fábio chama de "leão de treino": o candidato carismático, ótimo em se vender na entrevista, mas incapaz de sustentar a pressão da rotina comercial real. A formação do time deve seguir um ciclo rigoroso, Contratar, Treinar e Acompanhar. Na Salesforce, diante da necessidade de contratar e rampar dezenas de profissionais no início do ano fiscal, ele estruturou simulações de vendas reais na entrevista, proibiu que o contratado fosse a campo antes de um bootcamp completo e manteve cadência rígida de acompanhamento nos primeiros meses.

Os três estágios do crescimento

Por fim, Fábio descreve três saltos inegociáveis pelos quais toda empresa em crescimento precisa passar. O primeiro é o crescimento liderado pelo fundador, que carrega o piano sozinho. O segundo é liderado pelo time, quando se contratam pessoas para expandir a operação. O abismo aparece na transição para o terceiro estágio, liderado pelo sistema: contratar pessoas sem criar processos que funcionem de forma autônoma apenas transfere a sobrecarga do fundador para uma estrutura maior, sem resolvê-la. A maioria das pequenas e médias empresas estagna num platô de faturamento exatamente porque permanece refém do esforço hercúleo de quem a fundou.

O que isso significa para quem lidera

A provocação central de Fábio Couto para qualquer executivo é incômoda: tecnologia não é solução, é amplificador. Ela vai escalar a eficiência de um processo bem desenhado com a mesma velocidade com que vai escalar a desorganização de um processo inexistente. Antes de investir em automação ou inteligência artificial comercial, vale desenhar o fluxo de vendas num quadro branco, validar seu funcionamento manual e só então inserir o software. E vale perguntar, com honestidade, se a empresa está de fato prospectando oportunidades qualificadas ou apenas preenchendo agenda com reuniões improdutivas para bater indicadores de atividade. No fim, a pergunta mais dura que Fábio deixa para quem lidera um negócio em crescimento é simples: você construiu uma empresa que funciona como sistema escalável, ou apenas criou um emprego altamente estressante para si mesmo?

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