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Armim Unter
Ideias

Estratégia

Vocês são pagos para evitar risco, eu sou paga para tomar risco: a lição de Marina Almeida

02 de abril de 2026 · 9 min de leitura

Existe uma imagem confortável e enganosa sobre inovação corporativa: um laboratório lúdico, cheio de mentes criativas trabalhando sem restrições. A realidade de quem opera essa engrenagem dentro de gigantes estabelecidas é bem mais ríspida, inovar dentro de uma corporação é um exercício de diplomacia, conflito e sobrevivência política. Poucas pessoas no Brasil entendem essa dinâmica tão de perto quanto Marina Almeida.

Vender pão de mel antes de qualquer carteira assinada

A inclinação de Marina para resolver problemas não surgiu por acaso. Criada sob a crença paterna de que o ser humano é capaz de qualquer coisa desde que haja dedicação absoluta, ela construiu independência desde cedo: vendia pão de mel na escola e, depois de estudar espanhol e conquistar a certificação Miguel de Cervantes, passou a dar aulas particulares para gerar renda própria. Não esperava condições ideais; construía suas próprias pontes.

Foi na faculdade de Relações Públicas, Publicidade e Marketing que sua trajetória se cristalizou. Uma professora falava com frequência do sonho de trabalhar no prédio da Editora Abril. Marina, ainda sem clareza sobre onde aplicaria o próprio talento, participou de uma excursão universitária às instalações da Natura, em Cajamar. Ao ouvir a paixão de uma gerente de relacionamento falando da empresa, seu destino foi selado ali mesmo: a partir daquele dia, todos os seus trabalhos acadêmicos passaram a ser redirecionados para estudar o ecossistema da companhia. A obsessão deu resultado, ela ingressou no programa de estágio e permaneceu por quase doze anos.

Na Natura, não escolheu os caminhos previsíveis. Começou no marketing, mas encontrou sua vocação real na área de Inovação Comercial, que descreve como uma miniatura autônoma da empresa, transitando entre treinamento, estratégia de vendas e gestão de riscos. Quando metodologias ágeis e digitalização se tornaram imperativos, entre 2015 e 2016, foi a ela que a empresa confiou o desafio de traduzir o pensamento ágil da TI para as áreas de negócio. Essa trajetória a levou a fundar o Natura Startups e, mais tarde, a assumir a cadeira de Head Global de Inovação Aberta na The Bakery, a primeira aceleradora corporativa do mundo, liderando projetos na Europa e programas de realidade virtual com o governo da Arábia Saudita.

A frase que resume o conflito

A verdadeira batalha da inovação não acontece contra o concorrente no mercado. Acontece dentro da sala de reunião do conselho. A corporação tradicional foi construída, ao longo de décadas, para ser uma máquina de eficiência e previsibilidade. Finanças, Compliance e Segurança da Informação operam sob um mandato único: proteger o caixa e evitar risco a qualquer custo. Quando a empresa decide que precisa inovar, o executivo de inovação entra com a missão diametralmente oposta, é pago exclusivamente para assumir riscos e conviver com alta probabilidade de falha.

Marina enfrentou esse abismo cultural de frente. Em uma reunião crucial com as áreas de Segurança e Tecnologia, o impasse paralisava testes com startups. Colocou as cartas na mesa:

Vocês são pagos para evitar risco, eu sou paga para tomar risco. Vamos chegar num meio-termo.

Essa frase carrega uma constatação que qualquer líder de inovação precisa assimilar cedo: a inovação não prospera se operar sob as mesmas rédeas do negócio principal. É preciso criar um espaço delimitado onde o risco possa ocorrer sem explodir a operação central, o que ela chama de blast control.

O movimento sem rosto que mudou a cultura interna

Para provar que era possível hackear a cultura interna e trazer agilidade de forma orgânica, Marina e sua equipe orquestraram um experimento social dentro da própria Natura. Precisavam encontrar os early adopters, pessoas inquietas dispostas a desafiar o status quo de forma colaborativa. Mas se a iniciativa viesse de cima para baixo, pela diretoria, seria tratada como mais uma obrigação corporativa.

Com o apoio do CEO e da comunicação interna, a equipe lançou um movimento clandestino chamado "Sem Mimimi", uma provocação para que as pessoas parassem de reclamar dos processos lentos e começassem a agir para mudá-los. O movimento não tinha rosto; os idealizadores permaneceram anônimos. A provocação se espalhou pelos corredores e fez com que os verdadeiros intraempreendedores, inconformados com a lentidão, levantassem a mão e se unissem à causa. Identificando quem estava disposto a lutar pela mudança sem bônus ou exigência de chefe, Marina encontrou o exército necessário para fazer a cultura ágil finalmente tracionar. A lição é definitiva: você não muda um elefante corporativo apenas com planilhas; muda descobrindo quem, dentro dele, está disposto a liderar a revolução.

A ambidestria como modelo, não como discurso

Para que uma empresa não morra no futuro, ela precisa ser ambidestra: usar a mão direita para proteger e maximizar o ganha-pão de hoje, e a mão esquerda para explorar as tecnologias de amanhã. Misturar as duas coisas destrói ambas. Marina apresenta o modelo estruturado pela The Bakery, o Veículo de Inovação Autônoma: uma estrutura jurídica e societária apartada da nave-mãe, com governança e alçadas de aprovação próprias, para que a inovação corra na velocidade de uma startup usando o poder financeiro da corporação.

Há também um alerta duro para o outro lado da mesa, o das startups que dependem de contratos corporativos: "Nunca trabalhem de graça". O executivo corporativo recebe o salário no fim do mês independentemente do resultado do teste; a startup pode ir à falência financiando, sem saber, o aprendizado gratuito da gigante. Se a empresa não quer pagar para testar, não quer inovar, quer apenas vitrine.

O que isso significa para quem lidera

Uma das observações mais úteis de Marina para quem avalia investimentos ou parcerias de inovação é sobre onde de fato mora o risco: "uma ideia mais ou menos com um time muito bom vai dar certo, porque eles vão pivotar a ideia". A melhor solução do mundo entregue a um time imaturo fracassa. A corporação avalia a capacidade de resiliência das pessoas, não apenas a qualidade do código.

Há ainda uma lição sobre como qualquer ideia disruptiva avança, ou não, dentro de uma estrutura grande. Toda inovação atrai anticorpos corporativos, pessoas cuja função ou poder está ancorado no sistema antigo. Antes de iniciar um projeto de inovação aberta com um novo cliente, a The Bakery mapeia ativamente, junto ao patrocinador, quem serão os aliados, os neutros e os detratores mortais. Esse mapa define a estratégia de sobrevivência do projeto. Antes de submeter uma ideia ao comitê da sua empresa, vale fazer o mesmo exercício: identificar quem tem a perder com ela e garantir que essa pessoa seja ouvida desde o início, transformando resistência em construção, antes que ela se transforme em veto.

A batalha real da inovação, resume Marina, nunca foi puramente tecnológica. Foi sempre política, humana, cultural. E é justamente por isso que ela não se resolve com mais tecnologia. Resolve-se com a coragem de negociar, publicamente, o meio-termo entre quem protege o presente e quem é pago para arriscar o futuro.

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